10 setembro, 2008

Vaso Quebrado

A frase a seguir é um clichê, mas em certas circunstâncias parece verdade: A vida mais comum que possa parecer é um excelente tema para um filme...

Nos últimos dias sinto-me em um filme daqueles chatos ditos de "arte", que já assisti muito em outras épocas no Eurochanel, onde cenas com paisagens monótonas ficam por minutos passando sem ação e graça, com sentido subliminar que muitos dizem que entenderam para não serem considerados burros.

O Hotel é daqueles que um dia já foi "chique", no centro da cidade, em frente a praça principal que talvez em outra época foi um lugar agradável e familiar, hoje serve como terminal de ônibus urbano e reduto de motoboys.

A arquitetura do prédio é elegante, mas está mal conservado. Grandes janelas de madeira, proporcionariam uma bela visão se não fosse a paisagem que mostra. Mesmo no sexto andar, o barulho dos carros e ônibus dificultam até mesmo escutar a TV, sem falar nas malditas propagandas políticas em carros de som, são tantos e cada um mais insuportável que o outro, porém o ganhador é o Repolhinho... Vote no Repolhinho... Repolhinho é do povo... Repolhinho... quase joguei um objeto em cima deste carro de verdura.

No restaurante, uma luz amarelada proporciona uma penumbra, a intenção seria inspirar um clima aconchegante e refinado, mas para mim, fico um pouco incomodado e começo observar os detalhes do local enquanto aguardo por um bom tempo meu jantar.

Os garçons demoram a me atender pois estão puxando o saco de uns "gringos"(expressão muito usada em regiões portuárias), marinheiros russos que como de costume desta categoria esbanjam dólares para compensar o tempo que ficam embarcados sem contato com a oportunidade de gastar e por consequência se relacionar. Estes personagens poderiam compor o grupo de figurantes ideal, grandes, fortes, cabelos bem curto, fazem questão de falar alto e sinceramente, escutar russo é estranho. Saem da mesa com litros de conhaque e cerveja, algo grotesco.

O restaurante não é grande, deve ter umas 10 mesas que ficam enfileiradas com um corredor no meio, tudo muito próximo, ao ponto que escuta-se as conversas e barulhos de cada cliente.

Na mesa ao lado, uma senhora obesa toma uísque com água e come um pedaço generoso de carne gorda, acompanhado de um purê que é constantemente acrescentado colheradas de manteiga, neste tempo ainda não comecei a comer e já estou quase empanturrado.

O som ambiente é uma coletânea de hits dos anos 80. Tento me distrair com os objetos de decoração do ambiente, em minha mesa um pequeno vaso ao centro, um galho com folhas verdes o adorna. As folhas são de plástico, percebe-se pela textura uma camada de poeira, amarrada com palha e a boca do vaso está quebrada.

Finalmente chegou meu peixe, tratei de aproveitar o prato o quanto antes, ir logo para o quarto dormir, antes de começar a ficar depressivo e ficar pensando em ser diretor ou roteirista de cinema.

- Cenas que poderiam ser realizadas neste cenário:
1) mafiosos tramam matar alguém;
2) um casal termina o relacionamento;
3) alguém entra com uma metralhadora e dispara contra todos;
4) um solitário desiludido faz sua última refeição antes do suicídio;
5) um marido dedicado e fiel é confidenciado pela esposa que não o ama e tem um amante;
* faça sua cena.

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